A natureza sempre serviu de inspiração para o ser humano, principalmente no campo artístico. Ainda hoje, pintores e escultores retratam a beleza de paisagens e cenas naturais, em diversos estilos. Mas, por incrível que pareça, essa inspiração também tem papel fundamental dentro de laboratórios científicos.
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Ao observar o voo das aves, o homem pensou que seria possível voar. A lenda grega de Ícaro, que construiu asas artificiais a partir de cera do mel de abelhas e penas de gaivota, pode ser um indício de que a natureza inspirava a humanidade desde as civilizações mais antigas. E, séculos depois, a prática continuou.
Por meio da observação do voo de aves, Leonardo DaVinci percebeu que os pássaros não dependiam tanto do bater das asas para voar, mas sim da forma como exploravam as correntes de ar e o vento com suas asas. Com base nisso e no estudo da anatomia das aves, DaVinci propôs diversos modelos de máquinas voadoras e, apesar de não ter obtido sucesso em colocar essas invenções para funcionar, acabou fazendo parte da história da aviação.
Mas esse é apenas um dos exemplos mais famosos da área de estudo conhecida como biomimética, que tem como objetivo aprender com a natureza para, depois, aplicar esse conhecimento nas ciências. Confira outros inventos que surgiram graças à existência de animais, plantas e outros agentes naturais do planeta.

 Trem-bala e martim-pescador

Martim-pescador otimizou a performance dos trens-balas (Fonte da imagem: Sam Doshi/wildxplorer)
No Japão, alguns trens-balas podiam alcançar a velocidade de 300 km/h, mas o som emitido por eles extrapolava os padrões ambientais de poluição sonora. Uma das causas desse resultado indesejável era a onda de pressão atmosférica criada pelo trem quando ele entrava em um túnel estreito. Isso causava, na saída do túnel, uma explosão sônica e uma vibração sentida por moradores que estavam a até 400 metros de distância do local. Parte do problema estava no design do nariz do trem.
Além disso, ao entrar nesses túneis, os engenheiros perceberam que o veículo também enfrentava uma mudança drástica na resistência do ar. Não demorou muito até que encontrassem um exemplo na natureza de um animal que passasse por condições semelhantes, diariamente.
A solução do problema foi se encontrada por Eiji Nakatsu, engenheiro e observador de pássaros, que usou o martim-pescador como inspiração. A ave, que precisa mergulhar para se alimentar ― troca rapidamente de um ambiente de baixa resistência (ar) para um com muita resistência (água) ―, possui a aerodinâmica perfeita para essa situação.
Depois de remodelar o nariz do trem-bala para um formato similar ao bico do martim-pescador, os trens não passaram apenas a viajar de maneira mais silenciosa, mas também se tornaram 10% mais rápido e 15% mais econômicos.

 Velcro e plantas do gênero Arctium

Os carrapichos, que grudam em roupas e cabelos, serviram de inspiração para o velcro (Fonte da imagem:Wikipedia)
O velcro está presente na vida de todos. Seja na carteira, no bolso de uma bermuda ou na repartição de uma mochila, a verdade é que, por dispensar botões e zíperes, esse invento acaba agilizando nossa vida.
O que poucos imaginam, porém, é que a inspiração para essa invenção veio depois que o engenheiro suíço Georges de Mestral voltou de uma caçada com seu cachorro. O motivo foram os inúmeros carrapichos grudados tanto em suas roupas quanto nos pelos do cão. Ao observar essas plantas em um microscópio, Georges percebeu que eles possuíam minúsculos ganchos, que se prendiam em pequenos “laços”, como os formados pelos tecidos de nossas roupas.
A partir dessa observação, o engenheiro trabalhou em uma forma de reproduzir esses padrões de maneira sintética. Georges conseguiu patentear sua invenção em 1955 e, em 1958, uma importante colunista norte-americana anunciava ao mundo a criação do “zíper sem zíper”.

 O carro biônico da Mercedez-Benz

Formato do peixe-cofre inspirou o Mercedez-Bens Bionic (Fonte da imagem: Mercedes-Benz/Wikipedia)
Olhando o carro da foto acima, você diria que ele se parece com algum animal? Por mais diferente que possa ser, o Mercedes-Benz Bionic teve seu design inspirado no peixe-cofre, um habitante dos oceanos Índico, Pacífico e Atlântico.
Quando Dieter Gürtler, um dos engenheiros mais importantes da DaimlerChrysler, recebeu a missão de desenvolver um carro-conceito, com foco na aerodinâmica, ele levou seus colegas de trabalho para passearem em um museu de história natural. O objetivo? Observar a aerodinâmica de peixes e mamíferos marinhos.
Depois de analisar muitas espécies esguias, cujos formatos, se adaptados para um carro, deixariam motorista e passageiros bem apertados, Gürtler e sua equipe foram apresentados ao peixe-cofre (Ostracion cubicus). Apesar de não ser uma espécie muito bonita, esse peixe possui uma mobilidade incrível, além de ser um pouco “gordinho”, o que resultaria em mais conforto para as pessoas dentro de um carro construído com aquele design.
Depois disso, a equipe trabalhou em um modelo 3D do peixe e fez testes em túneis de vento e tanques d’água. O resultado deixou os engenheiros impressionados: a forma do modelo proporcionava uma performance quase tão boa quanto a de uma gota d’água, considerada como uma das formas mais aerodinâmicas que existem.Já notou como os displays de alguns eletrônicos se tornam impossíveis de serem lidos quando usados em um dia ensolarado? E já percebeu como as cores das asas de uma borboleta ficam mais bonitas com a luz solar? Pois bem, a Qualcomm resolveu unir essas duas coisas, lançando um novo modelo de telas para eletrônicos.
As borboletas, apesar de terem pouca pigmentação nas asas, refletem cores estonteantes quando voam em um dia de sol. Assim também funcionam as telas Mirasol, que aproveitam a iluminação do ambiente em que estão para refletir a luz e causar impressões visuais com bastante qualidade e fidelidade. Leia a notícia publicada no Tecmundo para entender melhor como funciona essa tecnologia.

 Ar-condicionado à moda dos cupins

Cupinzeiros serviram de inspiração para "ar condicionado" em um shopping do Zimbabwe (Fonte da imagem:Wikipedia)
Os cupins são grandes construtores da natureza. Suas colônias, os cupinzeiros, chegam a medir até 8 metros de altura. As “paredes” são feitas com partículas do solo misturadas com a saliva desses pequenos operários e resistem a diversos riscos externos, como fenômenos naturais e alguns predadores.
Mas o que chama mesmo a atenção em um cupinzeiro é o fato de que ele ser construído de forma a manter um ambiente com temperatura, umidade e ventilação precisamente controladas. Essa foi a inspiração para o sistema de refrigeração do Eastgate Centre, um shopping na cidade de Harare, Zimbabwe.
O edifício foi construído de forma a conseguir autorregular a temperatura interna, fazendo com que o ambiente seja sempre agradável para os funcionários e consumidores, dispensando um sistema de ar-condicionado comum. Com isso, também foi possível baratear o aluguel de lojas e economizar no gasto com energia elétrica.
Esses são apenas alguns exemplos de como a natureza pode inspirar os avanços tecnológicos. Caso você tenha ficado interessado pelo tema, pode conhecer outras iniciativas semelhantes por meio doAskNature, site em inglês que reúne projetos e ideias inspirados pela natureza.