POLPA MOLDADA

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Agricultores reunidos na Bahia debatem sobre produções mais sustentáveis

Agricultor Vilmar Lermen pratica a agroecologia
Ele morou um ano e meio num galpão com mulher e dois filhos vivendo à luz de velas. Hoje está se especializando para fazer vinho de Murta ou de Cambuí num processo de fermentação natural, tipo exótico da bebida, produto que poderá elevar um pouco mais sua renda. Falo de Vilmar Lermen, agricultor que pratica a agroecologia, 41 anos, casado, hoje com 4 filhos. Conversei com ele pelo telefone, no intervalo entre assistir uma palestra e outra do III Encontro Nacional de Agroecologia que termina hoje, em Juazeiro, na Bahia. O evento, que tem como tema “Cuidar da Terra, alimentar a saúde, cultivar o futuro”, reuniu mais de duas mil pessoas e foi organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia, rede composta por diversas entidades.
Vilmar é um dos participantes que mais atua no sentido de  buscar reunir as pessoas do campo em prol de uma produção mais diversificada.“Venho contribuindo para trazer esta consciência: o trabalho do agricultor é pesado, é duro, mas não se faz só. Uns pegam mais na linha de frente do que outros, mas tem que ter união”. Só assim, associados, é que eles conseguem fugir da hegemonia na região, que privilegia o monocultivo para vender mais rapidamente e em grande escala às grandes corporações.
“Mas esses que fazem isso estão mais vulneráveis, por exemplo, às mudanças do clima. Nos anos 2012 e 2013 houve uma variação brusca, com seca muito intensa e chuva durante muito tempo e muito concentrada. Normalmente o nosso inverno, que é quando chove, durava de dezembro a maio e a seca ia de junho a novembro, mas isso já não é mais assim. O que acontece é que os agricultores que mexem com culturas mais adaptadas e práticas mais sustentáveis têm sofrido menos. Isso é visível. Já vi produtor de gado que tinha cem cabeças ficar com 20 por causa da seca. Já quem cria bode, que é um bicho aqui da terra, acostumado a todo tipo de situação, até aumentou o rebanho, em vez de diminuir”, conta Vilmar.
A história de Vilmar pode ser contada em duas partes. Ele sempre mexeu com a terra, mas nasceu no Paraná, onde também teve que se esforçar muito para sobreviver. Foi lá que aprendeu a técnica de fazer vinho. Foi lá, também, que aprendeu a viver sem luz. E foi lá que conheceu sua mulher, pernambucana de origem, que o desafiou a buscar melhores condições no canto oposto do país. Vilmar aceitou. Juntou o que tinha, comprou o sítio na mesma região onde o sogro mora,  em Araripe, Cidade De Exu, terra de Luiz Gonzaga.  Começa aí a segunda parte de sua vida: “Minha mulher nunca tinha vivido sem luz, para ela foi mais difícil”.
Isso foi em 2007. Vilmar decidiu buscar a união de todos que moravam na região – cerca de cem famílias - para lutar pelos direitos. Foi assim que conseguiu que o lugar fosse atendido pelo Programa Luz para Todos, lançado pelo governo federal em 2003. Depois entrou para o programa “Um Milhão de Cisternas”, que a Associação para o Semiárido (ASA) criou junto ao governo e a empresas privadas e passou a guardar água da chuva para os tempos de seca. À medida que sua produção foi aumentando, sentiu necessidade de guardar mais água. Pediu então um empréstimo ao Programa Nacional de Fortalecimento de Agricultura Familiar (Pronaf) e construiu uma cisterna onde cabem 76 mil litros de água.
“Dependemos da água que Deus manda e aproveitamos cada gota dela. No período das chuvas, reaproveitamos todas as águas que podem ser reaproveitadas na cultura de fruta, porque nas hortaliças não pode. Reusamos também para os vasos sanitários. E temos também o Bioágua, um processo de filtragem, de decantação e de purificação da água através de processo de filtro em caixa de areia.”, conta Vilmar.
Hoje seu sítio é visitado por pessoas do Brasil todo. Vem gente até de fora, de outros países, para conhecer, por exemplo, sua plantação de Murtas, uma espécie de fruta  exótica. Vilmar fez esta opção, diferentemente da maioria dos agroagricultores de sua região, que produzem mais para comercializar para as escolas.  Mas ele vende vários produtos na porta de casa, por exemplo a castanha do caju para fazer barrinhas de cereal.
A relação mais difícil, para Vilmar, é com as empresas da região. O mundo corporativo está sempre querendo ganhar mais do que pagar, e isso tem sido motivo de muita luta para os pequenos produtores. “Nós conseguimos entregar produtos com valores dois terços mais baratos e muito mais saudáveis”, diz ele. Faço um contraponto, já que para nós, da zona urbana aqui no Sudeste, os produtos orgânicos são mais caros. E Vilmar diz que na região Semiárida já está mais fácil para os cidadãos comprarem produtos agroecológicos em locais específicos, feiras ou centrais.
“A população da cidade tem ajudado bastante, está mais consciente”, afirma Vilmar. Os próprios agricultores, que sempre foram muito desconfiados, têm cooperado mais no sentido de buscar uma produção que é melhor e menos arriscada para eles também. A mudança de hábito, acredita Vilmar, é fruto de um processo de organização da sociedade civil que tem se unido para fazer acontecer encontros como o ENA, que termina hoje com a palestra “Por um Brasil Agroecológico” e a presença do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, no campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco.
Conversar com Vilmar depois de ler tanto sobre o capitalismo do nosso século pelas resenhas do livro de Thomas Piketty (“Capital do século XXI”) é um sopro de ânimo. As questões estão à vista, mas já existem soluções sendo adotadas coletivamente por quem é mais afetado pela desigualdade social. O Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) reuniu pessoas que viajaram muito, quase sempre de maneira bem desconfortável, com o objetivo de estar junto, aprender novas técnicas, fazer contato, debater, ouvir. E combater as políticas industriais de empresas que preferem deixar tudo como está, cujas práticas não foram mencionadas pelo francês em seu livro. Piketty preferiu olhar para a distribuição de renda, não para o impacto que a produção causa, e que não é pequeno.

Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada pelo IBGE, a ocupação rural do Brasil é de 29,37 milhões de pessoas. Desses, cerca de 8 milhões são jovens, dos quais mais de 50% vivem no Nordeste. Muitos deles estiveram em Juazeiro neste fim de semana, atualizando a batalha por uma velha questão nacional: o acesso à terra através da reforma agrária. É assunto espinhoso, envolve muitos interesses. E pode ser o abre-alas para uma distribuição mais justa aqui no Brasil, pelo menos no campo.

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